Projeto Artístico
Que Som? Que Música? Só o Mundo!
Uma performance construída a partir da escuta do território que converge numa obra inseparável do lugar que a faz nascer.

Sinopse
A poesia está estritamente ligada à recolha pois é ela que narra o caminho feito - esse tempo que se incorpora no corpo. É também ela que pinta estas paisagens que trazem o som.
É a poesia que ilustra.
O que é som aprazível? Como se faz esse som?
O que é o som à nossa volta?
Como manipulamos os sons?
Esses sons têm voz? Têm palavras? Movimento? Cor?
São estas as premissas de Que Som? Que Música? Só o Mundo!
Nesta mescla criativa, que traz à tona a atenção dada à existência tão naturalmente fluída, faz-se a contemplação e a "naturalização" dos lugares comuns. Faz-se o apelo para a conexão com os lugares que são casa, que são paz ou caos.
Texto
Há sons que nos acompanham todos os dias sem que alguma vez os tenhamos verdadeiramente ouvido. O vento entre as árvores. O ritmo irregular do trânsito. A água que atravessa uma cidade. As conversas no café. O silêncio de uma fábrica vazia. O eco de uma praça ao final da tarde. Vivemos mergulhados numa composição permanente que raramente reconhecemos como música.
Que Som? Que Música? Só o Mundo! nasce da vontade de desacelerar e de devolver tempo à escuta. Cada residência artística começa com uma deriva pelo território, onde caminhar se transforma em método de observação e o gravador substitui o olhar. Aos poucos, as gravações tornam-se memória, ritmo, matéria poética e composição.
Não procuro representar um lugar nem construir um retrato fiel daquilo que nele acontece. Procuro escutar o que comunica quando lhe damos tempo para existir, permitindo que o som revele aquilo que tantas vezes o olhar apressa ou ignora.
A poesia surge como o fio que cose toda a experiência. Não ilustra a paisagem nem descreve o percurso; acompanha-o, respira-o e transporta consigo o tempo vivido em cada encontro. A performance que daí nasce procura fazer o mesmo, transformando o território em matéria artística sem lhe retirar a identidade, para que cada criação permaneça inseparável do lugar que a fez nascer.
No final, já não é o território que serve de cenário à obra. É a própria obra que se torna uma forma de regressar ao território.
Processo de criação
O projeto desenvolve-se a partir de uma escuta prolongada do território. Durante vários dias caminho, deixando que o próprio lugar determine o ritmo, as paragens e os encontros. Os sons vão surgindo naturalmente — nas ruas, na natureza, nas fábricas, nas conversas, nos gestos quotidianos — e cada gravação passa a fazer parte de um arquivo vivo, construído a partir daquilo que o território oferece e da forma como escolhemos escutá-lo.
É dessa escuta que nasce a escrita. Os textos não procuram responder ao que um lugar aparenta ser, mas aproximar-se daquilo que comunica quando lhe é concedido tempo, silêncio e presença. Mais tarde, as gravações são trabalhadas e integradas na composição sonora da performance.
Sempre que o processo o permite, a criação abre-se à comunidade através de oficinas de escrita, oralidade e escuta, fazendo com que as histórias, as vozes e as experiências de quem vive o território encontrem também um lugar na obra. Assim, cada residência torna-se um processo de encontro e cada performance uma criação única, inseparável do lugar que a fez nascer.
Parceiros
O projeto desenvolve-se em colaboração com municípios, estruturas culturais, escolas, associações e comunidades locais.
Cada parceria procura aprofundar a relação entre criação artística, território e participação, permitindo que a residência se transforme num verdadeiro processo de encontro.
Resultados / impacto
No final de cada residência permanece uma performance inédita, construída exclusivamente a partir da identidade do território.
Permanece também um arquivo de gravações, textos, memórias e encontros que documenta uma forma particular de escutar aquele lugar num determinado momento da sua existência.
O projeto procura deixar uma nova forma de olhar — e sobretudo de ouvir.
