Saltar para o conteúdo
Diogo Divagações

Criação Comunitária

Desassossegar

Projeto de criação comunitária e composição sonoplástica desenvolvido com o Conjunto d'Alegria, no âmbito do programa Cultura em Expansão.

Apresentação pública em dezembro de 2025, integrada na programação do Cultura em Expansão.
CeE_Desassossegar_CarolinaRibeiro_69

Desassossegar é um projeto de criação comunitária. Dirigido por Liliana Abreu e Rita Só com o Conjunto d'Alegria no âmbito do programa Cultura em Expansão.

O meu trabalho para este projeto partiu do encontro entre diferentes percursos de vida para construir uma obra sonoplástica onde a memória, a palavra e o silêncio se transformam em matéria artística.

Ao longo de quatro sessões foram recolhidos testemunhos, ambientes sonoros, conversas e momentos de partilha que deram origem a uma composição construída a partir das próprias pessoas participantes, preservando sempre a sua intimidade e identidade.

Há convites que se tornam acontecimentos que nos acompanham muito para além da obra que lhes dá origem.

O convite da Liliana e da Rita, lançado depois do meu concerto no Cineteatro António Famoso, foi um desses momentos. Recebi-o com um profundo sentimento de gratidão e de responsabilidade. A confiança que depositaram no meu trabalho abriu-me a possibilidade de viver uma experiência que dificilmente esquecerei.

Aceitar fazer parte do projeto significava muito mais do que integrar um espetáculo. Significava entrar num território humano novo, onde a criação nascia do encontro com pessoas e das histórias que traziam consigo.

Foi nesse contexto que comecei a trabalhar com o Conjunto d'Alegria.

Durante quatro sessões percorremos memórias, conversas, silêncios e pequenos gestos quotidianos. Gravei vozes, recolhi fragmentos de vida e transformei esse material numa peça sonoplástica construída para falar das pessoas sem nunca as expor.

Mas aquilo que verdadeiramente aconteceu escapou sempre à dimensão técnica do projeto.

Encontrei pessoas que me ensinaram outra forma de olhar o tempo, a fragilidade e a resistência. Vi olhares inicialmente desconfiados transformarem-se em confiança. Escutei poemas de uma delicadeza inesperada. Recebi confidências que só existem quando alguém sente que está verdadeiramente a ser ouvido.

Nunca esquecerei o momento em que um dos participantes, convivendo com quatro cancros, me disse com absoluta serenidade:

"O bicho é mau, mas eu ainda sou pior do que ele."

Há frases que permanecem connosco porque condensam uma vida inteira.

Este projeto ensinou-me que a arte comunitária não consiste em trabalhar sobre pessoas. Consiste em trabalhar com elas, aceitando que o artista (pessoa) também sai inevitavelmente transformado.

No final, a obra apresentada foi apenas a parte visível de um processo muito maior.

O verdadeiro resultado foi devolver-me a certeza de que a escuta continua a ser um dos lugares mais profundos da criação artística.

E por isso continuo profundamente grato à Liliana e à Rita. Não apenas pelo convite, mas pela confiança. Foi essa confiança que tornou possível viver um dos processos comunitários mais marcantes do meu percurso.

Porto

O projeto baseou-se numa metodologia de escuta participativa.

A composição sonora nasceu da organização das vozes recolhidas, preservando a autenticidade dos discursos e privilegiando relações de confiança, respeito e cuidado.

O Conjunto d'Alegria constituiu o centro de todo o processo.

A criação procurou reconhecer o valor da experiência acumulada pelos participantes, afirmando a memória como património vivo e transformando a convivência em matéria artística.

Mais do que produzir uma obra, este projeto construiu um espaço de pertença.

O projeto desenvolveu-se em quatro sessões presenciais com o Conjunto d'Alegria.

Cada encontro privilegiou a conversa, a escuta e a construção de confiança entre e com todas as pessoas participantes. As sessões foram registadas através de gravações realizadas em contexto de encontro regular do grupo, permitindo recolher vozes, ambientes e pequenos fragmentos do quotidiano.

Posteriormente, esse material foi ouvido, selecionado, editado e transformado numa composição sonoplástica original, construída de forma a preservar a identidade e a intimidade de cada participante.

O processo privilegiou sempre a relação humana sobre o resultado artístico, entendendo a criação como consequência natural da escuta.

O projeto resultou numa peça sonora apresentada publicamente em dezembro de 2025, inserido no.

Mais do que o resultado artístico, consolidou relações de confiança entre participantes, promoveu espaços de escuta ativa e reforçou a importância da criação artística como instrumento de encontro intergeracional.

Também representou um momento determinante no meu percurso enquanto artista, aprofundando a dimensão comunitária da minha prática.

Fotografias por Carolina Ribeiro.