Saltar para o conteúdo
Diogo Divagações

Arquivo

Artown Now

Escuta, liberdade e criação em território.

Projeto
TDB_0224-web

Durante a produção do Artown NOW, na Roménia, a UZUC foi território de escuta e matéria de criação. Percorri uma antiga fábrica enquanto as obras ainda encontravam forma, acompanhei artistas durante o trabalho, recolhi conversas, vozes e fragmentos do espaço e encontrei-me com a comunidade através da escrita e da palavra dita.

A liberdade começou a atravessar esses encontros com uma pergunta: o que permanece livre quando o corpo, a cidade e a vida aprendem a mover-se dentro das formas que lhes são dadas?

Aproximei-me de cada obra como quem se aproxima de uma voz. Do encontro nasceram várias peças sonoras. Uma para cada obra. Algumas guardaram palavras, outras ruído, respiração, repetição ou silêncio. Cada uma tentou permanecer suficientemente próxima daquilo que escutava sem tentar traduzir.

Quando cheguei à UZUC observei e comecei a gravar. Sons. Ruído, maioritariamente.

Havia obras ainda a procurar forma, materiais espalhados, gestos em repetição, conversas interrompidas para que o trabalho pudesse continuar. A fábrica estava cheia desse estado raro em que uma obra pode ser tudo quanto queira.

Percorri o espaço e fui ficando junto de cada artista, observando primeiro, perguntando depois. Queria perceber o que existia antes da explicação da obra: o que a tinha iniciado, que liberdade procurava, que limite enfrentava, o que ainda faltava decidir.

Foi nessas conversas que a liberdade começou a aparecer com frequência. Também a fui encontrando nas próprias obras, às vezes naquilo que rompiam, outras vezes naquilo que recusavam resolver.

Cada obra levou-me para um lugar diferente e percebi que não faria sentido criar uma única peça sonora. Fiz várias. Uma para cada obra.

No workshop, “somos realmente livres?” foi trabalhado com as pessoas. Partimos do quotidiano, das escolhas que fazemos e das que julgamos fazer. A escrita permitiu aproximar-nos da pergunta sem transformar a oficina numa discussão teórica.

Trabalhámos algumas bases da slam poetry e a relação entre escrita, voz e presença. Fizemos exercícios de escrita livre para tentar escrever antes de aparecer a preocupação com a frase certa, o medo de falhar ou aquilo que os outros poderiam pensar. Muitas vezes somos nós a interromper uma frase antes de ela existir.

Depois veio a voz. Trabalhámos respiração, ritmo, intenção, silêncio e algumas ferramentas para falar diante de outras pessoas. Os textos saíram da folha e foram ditos. Algumas palavras mudaram quando passaram pelo corpo.

Não chegámos a uma resposta sobre liberdade. Também não era isso que procurava. Interessava-me que cada pessoa pudesse escrever sem corrigir imediatamente aquilo que lhe aparecia e, depois, encontrar uma forma de dizer essas palavras diante dos outros.

Passei tempo com os artistas enquanto trabalhavam, conversei com eles e gravei essas conversas. Interessavam-me as referências, as dúvidas, as decisões e também aquilo que aparecia sem estar previsto numa pergunta. Por vezes, uma frase aparentemente lateral acabava por determinar uma peça inteira.

Depois regressava ao material, escrevia e compunha. Usei as vozes, os sons da fábrica, o ruído e o texto de maneira diferente em cada trabalho. Não havia uma fórmula a repetir de obra em obra. Havia o que tinha visto, o que tinha ouvido e aquilo que cada encontro me tinha deixado.